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“Orai pela paz de Jerusalém; prosperarão aqueles que te amam…” Será?

* Por Prof. José do Carmo da Silva

Orai pela paz de Jerusalém; prosperarão aqueles que te amam…”. – Será? – Um bate-papo sobre o conflito Israel e Palestina, cristãos, índios, negros e Brasil. Pr. José – mano Zé.

A história registra que, “quando o Estado de Israel foi formado em, 1948, milhares de palestinos árabes (muçulmanos e cristãos) foram expulsos das terras” onde eles e seus ancestrais viviam há mais de mil anos. Isso fez com que campos de refugiados palestinos (volto a insistir: compostos por muçulmanos e cristãos) fossem formados em diferentes países do Oriente Médio e na própria Palestina. Estes campos existem até hoje. As pessoas que neles vivem são consideradas cidadãs de classe, sem esperança e sem perspectiva de um futuro melhor. Milhares de árabes palestinos, assim como judeus, já morreram como resultado das tensões causadas por essa situação. (AMADO, 2014, p. 64) São dois povos sofrendo. Muito sangue já foi derramado na Faixa de Gaza, dos dois lados. Muitas lágrimas, sangue e cadáveres fecundam aquelas terras do Oriente, muito antes de Jesus de Nazaré, durante a vida dele, e continua até os dias atuais. Para tanta desgraça são muitos os motivos, e múltiplas interpretações políticas e teológicas.

Em meio as tristes notícias sobre a sangrenta guerra entre Israel e Palestinos vejo pessoas cristãs se posicionando ao lado de Israel. Algumas por simples apego ao Salmo. 122, versículo 6. “… Orai pela paz de Jerusalém; prosperarão aqueles que te amam…”. Outras por alegam que Jesus era judeu e falar ou se posicionar contra os judeus é se colocar contra o povo de Cristo. (O que é um erro, pois teologicamente falando, a fé cristã ensina que Cristo não tem origem em nenhum povo, Ele existia antes da humanidade, dos judeus e de Jesus de Nazaré, o qual segundo a carne descende dos judeus. Devemos saber separar o Cristo da fé, o preexistente, do Jesus Histórico) Há ainda aqueles, creio que minoria, que tomam partido de Israel por conta de que Jerusalém se tornou um centro de peregrinação, e muitos tem prosperado, com a paz dela, pois levam milhares de pessoas a praticarem o turismo religioso naquelas plagas, o que em tempos de guerra é impossível. Há ainda grupos que por interpretações escatológicas veem no conflito sinais da segunda vinda de Cristo, não sem antes se manifestar o falso messias, o anticristo. Esse último grupo torcem por Israel, pela destruição da Mesquita de Omar, e reconstrução do Terceiro Templo, pois assim se cumpririam as interpretações dele em torno das profecias escatológicas e apressaria a volta de Cristo para arrebatar a Igreja.

Não vou entrar em questões escatológicas e tampouco no mérito do direito de defesa de Israel. Não questiono o direito de uma nação em se defender quando atacada. O que quero é chamar a atenção para o apego de muitas pessoas cristãs a textos bíblicos do Antigo Testamento, quando esses textos se relacionam a bênçãos materiais. É o que ocorre em relação ao supracitado versículo do salmo 122. Devemos levar em consideração que a fé cristã embora não rejeite o Antigo Testamento, ela tem como realidade das promessas o Novo. O qual materializa as profecias sobre o Emanuel, o Deus conosco. Partindo desse entendimento compreenderemos que há textos do Antigo Testamento que não possuem validade na Nova Aliança inaugurada pela Encarnação do Verbo, morte de Jesus Cristo sua ressurreição e ascensão aos céus. Jesus nasceu em um contexto de ocupação romana. Viveu toda sua visa sob a opressão do maior Império que já se levantou e tombou sobre a terra. Viveu sob a opressão de um sistema religioso corrupto o qual foi rejeitado por Deus. Mesmo vivendo sob opressão, O Príncipe da Paz ensinou: “Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu, pois Ele faz com que o Sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores.

Porque, se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não fazem já isso os cobradores de impostos? E, se saudais somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos? Portanto, sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste.” – Mt 5, 42 -48. Os judeus sabiam que Jesus falava dos romanos. O inimigo era o colonizador, todavia, o Príncipe da paz disse a respeito deles: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Em sua fala Jesus vai alem do pedir oração por Jerusalém, Ele orienta a orar pelos inimigos. Ele diz que a benção não será prosperidade, mas sim “tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu, pois Ele faz com que o Sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores.” – O supracitado mandamento, considerando que há israelitas cristãos e palestinos cristãos, deve ser seguido por ambos e em favor de todos os povos.

O conflito que ocorre entre Judeus e Palestinos não seria diferente do que ocorreria aqui se a ONU decidisse devolver o Brasil aos remanescentes das nações indígenas que foram dizimadas pelos colonizadores. Ou se a ONU decidisse que escravidão negra foi um crime contra a humanidade e 50% das terras onde houve uso da mão de obra escrava fosse repartida entre os afrodescendentes. Muitos crentes defendem o direito de Israel as terras alegando que eles estavam lá desde os tempos bíblicos, mas não usam o mesmo argumento em relação aos índios aqui no Brasil. Por qual motivo será? Será por não haver um texto que oferece bênçãos materiais a quem orar pelos indígenas? Pode não haver promessas no sentido de bênçãos materiais imediatas como as buscadas pelos consumidores da fé, os quais lotam catedrais e templos salomônicos, mas há as seguintes promessas, que são infinitamente maiores e melhores do que prosperidade e comer o melhor dessa terra. Há promessas sim, e saíram dos lábios daquele que cultuamos como Luz para todos os povos. Daquele no qual, por ser da linhagem de Abraão, o pai da fé, se cumpre a promessa de Deus: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.1-3) Ele declarou e prometeu:

Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus;
Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados;
Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;
Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;
Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus;
Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus;
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. – Mateus 5:3-11

As Bem-Aventuranças é a Constituição, a Carta Magna do Reino de Deus. Nessa nova realidade da história divina/humana o que vale é o que Jesus de Nazaré anunciou. “Ouvistes o que foi dito aos antigos, eu, porém vos digo…” – Ao dizer assim Jesus de Nazaré resgata o espírito da Lei, cuja matéria e frieza da letra foram cravadas na cruz. Lá na cruz Ele se tornou aquilo que Deus profetizou sobre Israel, Luz para todos os povos, inclusive para os judeus. “Sim, diz ele: Pouco é o seres meu servo, para restaurares as tribos de Jacó e tornares a trazer os remanescentes de Israel; também te dei como luz para os gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra.” Isaías 49:6 RA.

Israel segundo a carne é um povo tão necessitado da misericórdia de Deus quanto nós brasileiros ou qualquer outra nação da terra. Não há preferência. A realidade de todos os povos fica patente nesta declaração bíblica. A Bíblia diz em Romanos 2: 11 “Porque para com Deus, não há acepção de pessoas.”. Paulo ensinou que, em Cristo Jesus nem circuncisão nem incircuncisão têm efeito algum, mas sim a fé que atua pelo amor… (Gálatas 5:6) Não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. Gálatas 3:28 – Em outras palavras, não são os filhos naturais que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa é que são considerados como descendentes de Abraão. Romanos 9:8 -E, se sois de Cristo, então, sois descendência de Abraão e plenos herdeiros de acordo com a Promessa. Gálatas 3:29. Porquanto em Cristo Jesus, nem a circuncisão nem a incircuncisão têm qualquer valor; mas sim a fé que opera pelo amor. Romanos 1:16. Qual é logo a vantagem do judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão?[…] Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado; Como está escrito:Não há um justo, nem um sequer.

Não há ninguém que entenda;Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. Romanos 3:1-12 “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus;” Romanos 3:23 Oremos sim, mas por todos os povos em conflitos, pois orar só por Jerusalém é se apegar a Antiga Aliança, e rejeitar a nova ordenança de Jesus Cristo. A Luz do ensino de Jesus de Nazaré, o que vale para nós é a intercessão por todos os povos. Devemos orar e trabalhar pela paz entre todas as nações, para que haja paz no mundo e prosperidade entre todos os povos. E não há paz sem que antes haja justiça, a Palavra nos diz: “E o fruto da justiça será a paz! A prática da justiça resultará em tranquilidade e segurança duradouras.” (Is 32,17).

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* É pastor da Igreja Metodista, Graduado em Teologia e Pós-Graduado em Ensino de Filosofia, Sociologia e Religião.
Fonte: AMADO, Marcos. O Sionismo Cristão Evangélico, a igreja palestina e a comunicação do amor de Cristo aos muçulmanos- p. 64 Ultimato. 2014

Pra não dizer que não falei de flores: Uma reflexão sobre a Graça de Deus

* Por Dr. Antonio Máspoli

No Novo Testamento, temos duas palavras para graça: “dom” e “káris”. Nos dois casos, o sentido é o mesmo: presente. A teologia calvinista define graça como um favor imerecido de Deus. A graça de Deus é o presente de Deus para o seu povo. E tal presente é Jesus Cristo e tudo o que sua pessoa e sua obra representam. Dizendo de outro modo, é o trabalho de Deus pelo seu povo: “Porque antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu um Deus além de ti, que trabalha para aquele que nele espera” (Is. 64: 4). A graça é tudo aquilo que Deus já realizou tudo o que esta fazendo, e tudo o que ele ainda fará pelo seu povo. A graça, portanto, é tudo que Deus faz por você!.

A graça pode ser compreendida de duas maneiras. A graça comum manifestada pela revelação natural e que alcança a todos os homens, conforme ensinou Jesus Cristo no Sermão do Monte: “Para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos” (Mt. 5: 45). E a graça especial, aquela conhecida por todos aqueles que se tornaram filhos de Deus por meio de Cristo Jesus (Ef. 2: 1-10 e 1 Jo. 5: 1-5). A salvação é de graça! O perdão é gratuito. A santificação é um presente de Deus.

Deus utiliza-se da graça comum por meio da natureza, de todos os elementos do cosmo, de todos os homens: médicos, curandeiros, psicólogos, xamãs, conselheiros, pastores etc. Já a graça especial de Deus é aquela que opera pelo Espírito Santo no coração do filho de Deus, conforme Ef. 2:1. A graça comum e especial de Deus cobre todos os pecados, todas as enfermidades, todos os problemas humanos e opera em todos os homens e mulheres, em todas as circunstâncias e situações da vida: depressão, angústia, medo, síndrome do pânico, tendências suicidas, perdas etc. (Rm. oito: 26-30).

Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos. Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou. A maior expressão graça de Deus é o amor.

A Bíblia diz em Rom, 8: 38-39: “Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem anjos, nem principados, nem coisas presentes, nem futuras, nem potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor”. O amor incondicional de Deus consiste no fundamento para o acolhimento da pessoa humana. “Deus é amor” (1 Jo. 4: 12). Deus ama porque é da sua natureza amar. Seu amor é eterno (Jr 31), imutável (8: 38-39) e incondicional (Is. 49: 1) e sacrificial (Jo. 3: 16). Deus ama o cristão saudável e o doente. Ama aquele que se encontra em bom estado de saúde e ama especialmente o aquele que sofre. Deus compreende o coração humano e as fraquezas humanas melhor do que ninguém. Ao longo da história da salvação seus filhos mais queridos sofreram, fraquejaram, adoeceram… Basta ler as histórias de Davi, Jeremias, Daniel, Jonas, Ezequiel, Elias etc. Não desanime na sua fragilidade humana você não esta só!

* Bacharel Em Psicologia pela Faculdade de Biologia e Psicologia Maria Theresa (1988); Licenciatura Plena Em Psicologia pelo Instituto de Ciência e Tecnologia; Faculdades Maria Thereza (1987); Bacharel Em Teologia – Seminário Presbiteriano do Sul (1981; Bacharel em Filosofia Pela UERJ, Universidade do Estdo do Rio de janeiro (Incompleto) Mestre em Psicologia (Psicologia Social) pela Universidade Gama Filho (1995) e Doutor Cências Sociais e Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (1999). Pós Doutor em História das Idéias Pelo Instituto de Estudos Avançados da USP foi orientado pelo Dr. Carlos Guilherme Mota, (2003). Atualmente é professor titular do Programa de Pós Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, pesquisador visitante do Laboratório de Psicologia Social: Estudos de Religião da Universidade de São Paulo; Coordenador do Laboratório de Psicologia Social da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Professor Visitante da FATHEL em Campo Grande, MS.

** Artigo disponível na fan page “Psicoterapia da Vida Cotidiana”: https://www.facebook.com/PsicoterapiaDaVidaCotidiana?fref=ts

O professor como intermediador do conhecimento: a busca pela formação integral do aluno

*Por Me. Gesilane de O. Maciel José

Uma das grandes preocupações das instituições de Ensino Superior no Brasil tem sido melhorar a qualidade nos cursos de graduação. Formar professores considerados competentes e envolvidos com as discussões atuais e com as demandas do mundo atual tem sido uma tarefa árdua. Há a exigência crescente quanto aos conhecimentos técnico-científicos e um desempenho docente diário com ações mais amplas que estão bem além do que simplesmente ensinar o que se conhece. Existe uma latente preocupação com a formação pedagógica, com um currículo como um percurso formativo, planejamentos mais condizentes com a realidade do aluno, métodos que possibilitem que a aprendizagem seja alcançada, recursos pedagógicos adequados, relacionamentos interpessoais mais significativos, avaliações voltadas para o desempenho do aluno, entre outras exigências.

Evidente que não se pode atribuir ao professor toda a responsabilidade com relação às falhas ocorridas no processo educacional. No entanto, sua responsabilidade é notória quando o assunto é intermediar o conhecimento, quando seus saberes e práticas são colocadas em ‘xeque’, visto que o processo de aprender se constitui em uma atitude de busca, de construção científica e de crítica ao conhecimento produzido. É com essa intencionalidade que se configura o entorno docente, com relação ao conhecimento e ao aluno, como uma ponte que faz essa ligação, compreendendo que esse processo precisa ser construído e intermediado, de modo que a aprendizagem se torne mais significativa ao aluno.

Pimenta e Almeida (2011) salientam que, para muitos professores, o território da docência ainda é, sob o ponto de vista teórico, um universo bastante desconhecido. O fazer em sala de aula sustenta-se, em grande parte, num tripé, fruto da combinação entre a reprodução do que realiza em sua atuação profissional específica, as experiências pregressas vividas como aluno e aquilo que vem sendo sedimentado por meio da própria atuação como professor.

Com base nesse contexto, o professor como intermediador do conhecimento não repassa simplesmente a informação, “[…] como uma sucata congelada em gestos reprodutivos decaídos, já destituídos completamente da energia rebelde” (DEMO, 2005, p. 27). É necessário desatrelar o ensino do instrucionismo produzido pela elite dominante. O conhecimento precisa ser produzido, não apenas escutado e reproduzido. É um processo de desconstrução, construção e reconstrução, em uma dinâmica de questionamento, de levar o aluno ao pensar, de desenvolver o seu potencial de consciência, que possa gerar transformação em sua realidade e na forma de enxergar o mundo.

Assim, o conhecimento, […] é o esforço do “espírito” humano para compreender a realidade, dando-lhe um sentido, uma significação, mediante o estabelecimento de nexos aptos a satisfazerem as exigências intrínsecas de sua subjetividade. Mas são várias as formas de conhecimento, culturalmente já caracterizadas, em função das peculiaridades de seu processo de elaboração (SEVERINO, 1994, p. 22). Ou seja, não basta ensinar; é preciso saber como intermediar o conhecimento, como articular a construção das ideias, criar condições para que o aluno adquira informações, organizar estratégias para que se compreendam suas reais condições de sociedade e de cultura. A atitude e o comportamento do professor colocam-no como facilitador e motivador da aprendizagem. Em sua prática pedagógica, surgem novas dimensões de trabalho e de conceitos educacionais, interagindo o aprendiz com o aprender.

Esse novo diálogo direciona a construção do conhecimento para uma nova abertura e compreensão da realidade social vivenciada pelos homens e pelo surgimento de uma nova consciência, sendo diretamente útil para a condução dos aspectos concretos da vida, visto que atribui novos valores éticos, políticos, econômicos, sociais e culturais. O conhecimento torna-se mais significativo quando as perguntas desenvolvidas pelo professor mudam de foco. As perguntas deveriam ser direcionadas aos objetivos que pretende alcançar com os alunos, procurando atender suas expectativas e necessidades, direcionar o ensino de forma que envolva e facilite o aprendizado e o desenvolvimento do aluno.

Para Demo (2005) o conhecimento disruptivo, que rompe, confronta, questiona e desconstrói: o conhecimento do senso comum, embora não possa ser visto apenas como descartável ou desprezível, é facilmente crédulo, porque não se detém em desconstruir o que percebe ou diz. Não sabe pensar, já que, quem não sabe pensar, acredita no que pensa; mas quem sabe pensar, questiona o que pensa. Abandona a autoridade do argumento e prefere o argumento de autoridade, dedicando-se a argumentar, fundamentar, elaborar. É próprio do conhecimento mais profundo questionar – seu primeiro ímpeto é desconstrutivo, porque parte para duvidar do que vê ou ouve, não se resigna a simplesmente aceitar; em seguida reconstroi, sabendo, porém, que este gesto é provisório, porque não é viável questionar e impedir o questionamento.

Com base nessa visão, o conhecimento passa por um processo de aprender a argumentar, de fomentar no aluno a habilidade de pensar de forma que o conhecimento torne-se patrimônio comum à humanidade, e não mais atributo de poucos. É preciso criar uma nova cultura acadêmica nos cursos de graduação, que considere uma formação que garanta aos estudantes o desenvolvimento de uma postura frente ao saber; que problematize as informações e garanta a sua formação como cidadãos e profissionais compromissados com a aplicação do conhecimento em prol da melhoria da qualidade de vida de toda a sociedade; que possibilite o desenvolvimento do pensamento autônomo, substituindo a simples transmissão do conteúdo pelo engajamento dos alunos no processo de interrogar o conhecimento elaborado, pensar e pensar criticamente; que estimule a discussão, desenvolva metodologias de busca; que confronte conhecimentos, mobilize visões interdisciplinares sobre os fenômenos e aponte a solução para os problemas sociais. (PIMENTA; ALMEIDA, 2011).

A intermediação do conhecimento ao aluno procura educar para se produzir ciência, vislumbrar o futuro de novas gerações. Para que isso seja alcançado é preciso abranger novos aspectos que se voltem para a formação integral do aluno, e não apenas para o conhecimento científico, técnico e racional. Esta intermediação possibilita a formação integral do aluno, agregado ao espírito investigativo e ao interesse pela pesquisa. Propiciam uma leitura crítica de mundo, de participação na construção da sociedade de forma ativa, e por fim, agindo como um sujeito que faz história.

Sendo assim, o aluno não pode mais ser encarado somente nos aspectos que envolvem a formação científica, racional e objetiva, afinal “[…] a leitura que o sujeito faz de um objeto é que lhe atribui sentido. Tudo indica que enquanto a objetividade se atrela à comprovação pelo intelecto, pelo raciocínio ou pela prova dos sentidos; a subjetividade liga-se ao sujeito […] em sua corporeidade” (ROJAS, 2002, p. 96).

Para Trindade (2008, p. 67), isto não significa que a atitude científica deva ser igualada à mística e uma reduzida à outra. A ciência, na forma em que a conhecemos e a construímos no decorrer do tempo, não necessita do misticismo, nem este dela. No entanto, o ser, como humano, emerge da relação harmônica e dinâmica entre ambos. Vivemos momentos de transição, de questionamentos, uma época em que nossos saberes e nossos poderes parecem estar desvinculados. Mais do que isso, o saber atual fragmentado dispersou-se pelo planeta, e o centro dessa circunferência que antes era ocupado pelo homem se encontra, agora, vazio. O fantástico desenvolvimento científico e tecnológico que ora vivenciamos também trouxe uma preocupante carência de sabedoria e introspecção.

A fragmentação do saber separou e limitou o homem a ultrapassar as barreiras de um conhecimento mais amplo e mais humano. Atualmente, as novas realidades apresentam uma época de ênfase à tecnologia, à velocidade, e à aproximação que os recursos tecnológicos e as redes sociais permeiam na vida das pessoas. O paradoxo instaura-se, pois, ao mesmo tempo em que a tecnologia diminui as distâncias e aproxima o mundo como se fosse uma pequena aldeia, reunindo culturas diferentes em convívio mais próximo, vivemos a época da fragmentação, das partilhas e das rupturas. As relações são distanciadas pelos computadores, a vida humana perde valores importantes que envolvem a relação com o outro, com a troca, a vivência e tudo aquilo que a aproximação entre os seres pode proporcionar.

Nesse cenário, é eminente o desafio do professor, que deve formar o sujeito individual, capaz de refletir sobre a sua realidade e, ao mesmo tempo, formar um cidadão em seu contexto de coletividade. Todos os elementos inerentes ao homem, que relacionam a subjetividade, como as emoções, expectativas, frustrações, necessidades, dificuldades, entre outros, da mesma forma precisam ser percebidos pelo docente sob um novo olhar. A interdisciplinaridade se apresenta como um instrumento de resgate ao ser humano, como uma nova ordem de pensar o mundo – um novo olhar sobre os educandos. Representa um instrumento de percepção.

Esse é o olhar interdisciplinar. Um olhar de dentro para fora e de fora para dentro, para os lados, para os outros. Um olhar que desvenda os olhos e, vigilante, deseja mais do que lhe é dado ver. Um olhar que transcende as regras e as disciplinas, olhar que acredita que só existe o mundo da ordem para quem nunca se dispôs a olhar! Um olhar inflado de desejo de querer mais, de querer melhor, um olhar que recusa a cegueira da consciência (GAETA, 2001, p. 224).

Rojas (2012) acrescenta que o olhar intencional do educador pode revelar o mundo a sua volta tal como ele é. As vivências no processo do aprender/ensinar, as experiências pedagógicas perfazem um contexto, que é parte desse mundo. Que pode ser desvelado, deixando à mostra a inconcretude, o inacabamento, as infindáveis possibilidades de ser, de criar, de pensar e de construir o saber. Tal olhar sob múltiplos enfoques possibilita enxergar uma outra dimensão da realidade, de enxergar cada aluno na intencionalidade de interagir e de se conhecer. O olhar desperta novas visões e possibilidades de ensinar, de ampliar os conceitos, de enxergar a singularidade na dimensão da pluralidade, de metamorfosear o olhar. “As metamorfoses do olhar não revelam somente quem olha; revelam também quem é olhado, tanto a si mesmo como ao observador” (Chevalier; Gheerbrant, 2008, p. 653). O olhar serve como um instrumento de revelação e ainda permite relacionar o caráter objetivo ao subjetivo dos sujeitos.

Com a reassociação do subjetivo ao objetivo, a ciência passa a ligar a parte ao todo, junto ao emocional. Isso significa que, por meio dessa ciência, constitui-se uma ciência simbólica, sendo capaz de mostrar ao ser humano a sua raiz objetiva e subjetiva cósmica. Ao invés de contribuir cada vez mais para a separação do ser humano da natureza à sua volta, como fez a ciência positivista, a ciência simbólica reumaniza a natureza e o universo (FAZENDA, 1995).

Nesse sentido, sua formação é encarada como um todo. São considerados os aspectos que abrangem o processo formativo que estão além dos conhecimentos técnicos, mas que capacitam o aluno nas diferentes dimensões, que envolvem sua inserção no mundo, no exercício dos valores morais e de ética, tendo como princípio a convivência humana, o preparo para a cidadania, a solidariedade humana, a valorização e participação das manifestações culturais e sociais. Todos esses valores possibilitam a formação integral do aluno, agregado ao espírito investigativo, ao interesse pela pesquisa. Propiciam uma leitura crítica de mundo, de participação na construção da sociedade de forma ativa, e por fim, agindo como um sujeito que faz história.

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REFERÊNCIAS

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. 22. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008.

DEMO, Pedro. Professor do futuro e reconstrução do conhecimento. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2005.

FAZENDA, Ivani. (Org.). A Pesquisa em Educação e as Transformações do Conhecimento. Campinas: Papirus, 1995.

GAETA, Cecília. Olhar. In: FAZENDA, Ivani. Dicionário em construção: interdisciplinaridade. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2001.

PIMENTA, Selma Garrido; ALMEIDA, Maria Izabel de. (Orgs.). Pedagogia Universitária: caminhos para a formação de professores. São Paulo: Cortez, 2011.

ROJAS, Jucimara. Efeitos de Sentido em Fenomenologia nas Práticas Educativas: Linguagem, Cognição e Cultura. Anais III SIPEQ & V EFAE. Disponível em http://www.ded.ufms.br/listprof/currc1/ jucimara/PMCHF1.pdf. Acesso em 10 jan. 2012.

______________. Interdisciplinaridade na ação didática: metáforas e metodologias na Formação do Educador. Intermeio: revista do Mestrado em Educação, Campo Grande, MS, v.8, n.15, p. 88-101, 2002.

SEVERINO, Antônio Joaquim. Filosofia. São Paulo: Cortez, 1994.

TRINDADE, Diamantino Fernandes. Interdisciplinaridade: um novo olhar sobre as ciências. In: FAZENDA, Ivani (Org.). O que é interdisciplinaridade? São Paulo: Cortez, 2008.

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 * Possui Mestrado em Educação/UFMS (2013), Especialização em Didática do Ensino Superior pela UNIFIL/PR (2010), Especialização em Gestão Escolar pela UCB/RJ, Graduação em Comunicação Social pela UCDB/MS (2000), Graduação (em andamento) em Licenciatura em Pedagogia pelo CESUMAR/PR (2009). Atualmente desenvolve pesquisas nas áreas de Educação, com ênfase em Prática e Formação Docente no Ensino Superior, Interdisciplinaridade e Didática. Participa do Grupo de estudos de Fenomenologia, Formação, Linguagem Lúdica e Interdisciplinaridade em Pesquisa e Educação – FFLLIPE.

** Texto extraído de parte de sua dissertação de Mestrado em Educação pela UFMS/MS.

A espera do Outro e a esperança em Mim

* Por Ednei Germano Silveira

Estamos à mercê dos acontecimentos, e esses acontecimentos se tornam uma espera a medida que colocamos importância e relevância nesses acontecimentos. Esperamos ao menos logo pela manhã que tenhamos um bom dia no trabalho, na escola, na família, nos relacionamentos e na vida de modo geral. Esperamos, justamente por dar importância as coisas, as pessoas, aos fatos. Percebe-se que aquilo que não aplicamos importância, nem sequer assimilamos, percebemos ou tomamos conhecimento, pois se torna irrelevante por ser algo que está fora da nossa classificação automática das coisas, daquilo que nos importa.

Os acontecimentos são gerados pelas ações e é preciso a interferência humana nos fatos. Para tanto, esperamos os acontecimentos, seja de forma consciente ou inconsciente, pois tudo é feito através dos acontecimentos, das ações humanas.

A espera de acontecimentos parte de um para o outro, ou seja, essa espera se dá no outro, esperamos do outro para o eu. A aplicação da espera é o desejo que temos no outro, que se faça em nós aquilo que desejamos.

Esperamos que sejamos atendidos coletivamente ou individualmente. E essa espera pode ser aguardar, ter esperança, imaginar, supor, achar, contar com, estar reservado para, estar à espera de algo, ficar à espera, manter-se em expectativa, esperar por uma coisa impossível, duvidosa, difícil de obter e tantas outras. Na maioria das vezes, esperamos tudo isso no outro, nem que para isso se faça necessário fugir da realidade, se fechar para as possibilidades e não avaliar o contexto da espera.

Estamos vivendo num tempo, que aludindo a análise de Weber (1993) sobre a modernidade como desencantamento do mundo produzido pela nova racionalidade, falou-se da pós-modernidade como “o desencanto do desencanto”. O que vivemos hoje, ao invés de paz social, comportamentos racionais e felicidade pessoal, uma terrível guerra que devasta em vários sentidos, uma instabilidade política e terríveis violências. Somos violentos sobretudo no outro, transferimos todo o impacto causado pelas mazelas sociais, seja a guerra urbana ou a instabilidade política, seja a preservação de si ou intolerância desmedida, mas que revela exatamente a frustração com relação à modernidade.

Em tempos de guerra como esperar a paz? Ou em pleno terror esperar a cura? (Jr 8:15). É possível ver dois caminhos, sendo um a espera no outro, ou espera na esperança.

A paz é esperada no outro, o homem olha para o outro esperando que se faça a paz, mas em si é incapaz de praticar a paz. Em sua espera de paz se faz guerra. Queremos que os outros façam paz, façam o que é correto, façam o que é justo e que é dever de todos os homens. Mas somos incapazes de praticar tais esperas, somos irredutíveis quanto a postura de assumir em si a responsabilidade de aplicação pessoal, e transferimos para o outro aquilo que é dever de cada um.

Parece que os dias atuais não reúnem condições necessárias para a paz, para a saúde, para o diálogo, para a justiça, para felicidade. Mas a superficialidade gera justamente a noção de espera e espera no outro. Vê-se o contrário proposto pela modernidade, como reforça Gutiérrez (2003) que as tecnologias e avanços científicos pudessem trazer uma proximidade de si para o outro, mas que afastam devido a competitividade gerada na busca pela satisfação pessoal, pela satisfação do eu.

A esperança pode ser algo positivo em meio as indiferenças humanas, justamente por trazer um conforto de que a espera pode ser recompensada no futuro. Mas a esperança deve ser justa e legítima em seu fundamento, pois caso ao contrário transformará em frustração e seguirá num viés egocêntrico. A esperança deve ser justamente a condição necessária para suportar os ataques que na modernidade sofremos, e apontar para o alívio futuro que nos dará a condição de não mais esperar no outro, mas dar de si ao outro. É o que nos dará um novo padrão, uma nova direção, um sentido que não será pautado na espera do outro, mas na ação de si. Despertará o desejo para com o outro, e a direção será do eu para o outro. “O Desejo do Outro, que nós vivemos na mais banal experiência social, é o movimento fundamental, o elã puro, a orientação absoluta, o sentido”. (LÉVINAS, 2012, p. 49).

Quando a espera pela paz e o desejo pela cura, for o sentido em nós, teremos a responsabilidade de dirigir ao outro, com a condição necessária para a formação de uma sociedade e relações humanas, sendo no outro o que desejamos em nós. A esperança não terá o papel de futuro para ser justamente o presente esperado de outrora.

REFERÊNCIAS

GUTIÉRREZ, Gustavo. Onde dormirão os pobres? 3. ed. São Paulo: Paulus, 2003.

LÉVINAS, Emanuel. Humanismo do outro homem. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.

WEBER, Max “A ciência como vocação”. In.: WEBER, Max: Ciência e Política: Duas Vocações. São Paulo: Cultrix, 1993.

** Aluno do curso de Bacharel em Teologia pela FATHEL – Centro de Formação Integral e aluno do curso de Licenciatura plena em Pedagogia pela UEMS – Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul.

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