“Orai pela paz de Jerusalém; prosperarão aqueles que te amam…” Será?

* Por Prof. José do Carmo da Silva

Orai pela paz de Jerusalém; prosperarão aqueles que te amam…”. – Será? – Um bate-papo sobre o conflito Israel e Palestina, cristãos, índios, negros e Brasil. Pr. José – mano Zé.

A história registra que, “quando o Estado de Israel foi formado em, 1948, milhares de palestinos árabes (muçulmanos e cristãos) foram expulsos das terras” onde eles e seus ancestrais viviam há mais de mil anos. Isso fez com que campos de refugiados palestinos (volto a insistir: compostos por muçulmanos e cristãos) fossem formados em diferentes países do Oriente Médio e na própria Palestina. Estes campos existem até hoje. As pessoas que neles vivem são consideradas cidadãs de classe, sem esperança e sem perspectiva de um futuro melhor. Milhares de árabes palestinos, assim como judeus, já morreram como resultado das tensões causadas por essa situação. (AMADO, 2014, p. 64) São dois povos sofrendo. Muito sangue já foi derramado na Faixa de Gaza, dos dois lados. Muitas lágrimas, sangue e cadáveres fecundam aquelas terras do Oriente, muito antes de Jesus de Nazaré, durante a vida dele, e continua até os dias atuais. Para tanta desgraça são muitos os motivos, e múltiplas interpretações políticas e teológicas.

Em meio as tristes notícias sobre a sangrenta guerra entre Israel e Palestinos vejo pessoas cristãs se posicionando ao lado de Israel. Algumas por simples apego ao Salmo. 122, versículo 6. “… Orai pela paz de Jerusalém; prosperarão aqueles que te amam…”. Outras por alegam que Jesus era judeu e falar ou se posicionar contra os judeus é se colocar contra o povo de Cristo. (O que é um erro, pois teologicamente falando, a fé cristã ensina que Cristo não tem origem em nenhum povo, Ele existia antes da humanidade, dos judeus e de Jesus de Nazaré, o qual segundo a carne descende dos judeus. Devemos saber separar o Cristo da fé, o preexistente, do Jesus Histórico) Há ainda aqueles, creio que minoria, que tomam partido de Israel por conta de que Jerusalém se tornou um centro de peregrinação, e muitos tem prosperado, com a paz dela, pois levam milhares de pessoas a praticarem o turismo religioso naquelas plagas, o que em tempos de guerra é impossível. Há ainda grupos que por interpretações escatológicas veem no conflito sinais da segunda vinda de Cristo, não sem antes se manifestar o falso messias, o anticristo. Esse último grupo torcem por Israel, pela destruição da Mesquita de Omar, e reconstrução do Terceiro Templo, pois assim se cumpririam as interpretações dele em torno das profecias escatológicas e apressaria a volta de Cristo para arrebatar a Igreja.

Não vou entrar em questões escatológicas e tampouco no mérito do direito de defesa de Israel. Não questiono o direito de uma nação em se defender quando atacada. O que quero é chamar a atenção para o apego de muitas pessoas cristãs a textos bíblicos do Antigo Testamento, quando esses textos se relacionam a bênçãos materiais. É o que ocorre em relação ao supracitado versículo do salmo 122. Devemos levar em consideração que a fé cristã embora não rejeite o Antigo Testamento, ela tem como realidade das promessas o Novo. O qual materializa as profecias sobre o Emanuel, o Deus conosco. Partindo desse entendimento compreenderemos que há textos do Antigo Testamento que não possuem validade na Nova Aliança inaugurada pela Encarnação do Verbo, morte de Jesus Cristo sua ressurreição e ascensão aos céus. Jesus nasceu em um contexto de ocupação romana. Viveu toda sua visa sob a opressão do maior Império que já se levantou e tombou sobre a terra. Viveu sob a opressão de um sistema religioso corrupto o qual foi rejeitado por Deus. Mesmo vivendo sob opressão, O Príncipe da Paz ensinou: “Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu, pois Ele faz com que o Sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores.

Porque, se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não fazem já isso os cobradores de impostos? E, se saudais somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos? Portanto, sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste.” – Mt 5, 42 -48. Os judeus sabiam que Jesus falava dos romanos. O inimigo era o colonizador, todavia, o Príncipe da paz disse a respeito deles: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Em sua fala Jesus vai alem do pedir oração por Jerusalém, Ele orienta a orar pelos inimigos. Ele diz que a benção não será prosperidade, mas sim “tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu, pois Ele faz com que o Sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores.” – O supracitado mandamento, considerando que há israelitas cristãos e palestinos cristãos, deve ser seguido por ambos e em favor de todos os povos.

O conflito que ocorre entre Judeus e Palestinos não seria diferente do que ocorreria aqui se a ONU decidisse devolver o Brasil aos remanescentes das nações indígenas que foram dizimadas pelos colonizadores. Ou se a ONU decidisse que escravidão negra foi um crime contra a humanidade e 50% das terras onde houve uso da mão de obra escrava fosse repartida entre os afrodescendentes. Muitos crentes defendem o direito de Israel as terras alegando que eles estavam lá desde os tempos bíblicos, mas não usam o mesmo argumento em relação aos índios aqui no Brasil. Por qual motivo será? Será por não haver um texto que oferece bênçãos materiais a quem orar pelos indígenas? Pode não haver promessas no sentido de bênçãos materiais imediatas como as buscadas pelos consumidores da fé, os quais lotam catedrais e templos salomônicos, mas há as seguintes promessas, que são infinitamente maiores e melhores do que prosperidade e comer o melhor dessa terra. Há promessas sim, e saíram dos lábios daquele que cultuamos como Luz para todos os povos. Daquele no qual, por ser da linhagem de Abraão, o pai da fé, se cumpre a promessa de Deus: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.1-3) Ele declarou e prometeu:

Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus;
Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados;
Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;
Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;
Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus;
Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus;
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. – Mateus 5:3-11

As Bem-Aventuranças é a Constituição, a Carta Magna do Reino de Deus. Nessa nova realidade da história divina/humana o que vale é o que Jesus de Nazaré anunciou. “Ouvistes o que foi dito aos antigos, eu, porém vos digo…” – Ao dizer assim Jesus de Nazaré resgata o espírito da Lei, cuja matéria e frieza da letra foram cravadas na cruz. Lá na cruz Ele se tornou aquilo que Deus profetizou sobre Israel, Luz para todos os povos, inclusive para os judeus. “Sim, diz ele: Pouco é o seres meu servo, para restaurares as tribos de Jacó e tornares a trazer os remanescentes de Israel; também te dei como luz para os gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra.” Isaías 49:6 RA.

Israel segundo a carne é um povo tão necessitado da misericórdia de Deus quanto nós brasileiros ou qualquer outra nação da terra. Não há preferência. A realidade de todos os povos fica patente nesta declaração bíblica. A Bíblia diz em Romanos 2: 11 “Porque para com Deus, não há acepção de pessoas.”. Paulo ensinou que, em Cristo Jesus nem circuncisão nem incircuncisão têm efeito algum, mas sim a fé que atua pelo amor… (Gálatas 5:6) Não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. Gálatas 3:28 – Em outras palavras, não são os filhos naturais que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa é que são considerados como descendentes de Abraão. Romanos 9:8 -E, se sois de Cristo, então, sois descendência de Abraão e plenos herdeiros de acordo com a Promessa. Gálatas 3:29. Porquanto em Cristo Jesus, nem a circuncisão nem a incircuncisão têm qualquer valor; mas sim a fé que opera pelo amor. Romanos 1:16. Qual é logo a vantagem do judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão?[…] Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado; Como está escrito:Não há um justo, nem um sequer.

Não há ninguém que entenda;Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. Romanos 3:1-12 “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus;” Romanos 3:23 Oremos sim, mas por todos os povos em conflitos, pois orar só por Jerusalém é se apegar a Antiga Aliança, e rejeitar a nova ordenança de Jesus Cristo. A Luz do ensino de Jesus de Nazaré, o que vale para nós é a intercessão por todos os povos. Devemos orar e trabalhar pela paz entre todas as nações, para que haja paz no mundo e prosperidade entre todos os povos. E não há paz sem que antes haja justiça, a Palavra nos diz: “E o fruto da justiça será a paz! A prática da justiça resultará em tranquilidade e segurança duradouras.” (Is 32,17).

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* É pastor da Igreja Metodista, Graduado em Teologia e Pós-Graduado em Ensino de Filosofia, Sociologia e Religião.
Fonte: AMADO, Marcos. O Sionismo Cristão Evangélico, a igreja palestina e a comunicação do amor de Cristo aos muçulmanos- p. 64 Ultimato. 2014

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